O mito da opressão

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Fonte: Livro – Sexo Privilegiado – O fim do mito da fragilidade feminina – Autor: Martin Van Creveld.

Estetexto procura demolir alguns dos mitos relacionados a opressão das mulheres pelos homens. Esses mitos começam com alegação de que, nos países em desenvolvimento, os homens encurtam a vida das mulheres privando-as de alimentos e cuidados médicos, enquanto as estatísticas mostram que, na maioria dessas Nações, as mulheres vivem mais que os homens. E terminam com a ideia de que a razão pela qual há tão poucas mulheres em profissão “árduas”, como a engenharia, é o fato de que os homens “afastarem-nas” delas, no entanto, bastou Stálin eliminar, em 1937, a exigência de que 50% dos alunos das escolas técnicas soviéticas fossem do sexo feminino para que as matrículas de mulheres diminuíssem rapidamente. Alguns mitos são tolos, como, por exemplo, o que reza que o teclado Qwerty é usado há mais de um século para dificultar a vida das datilógrafas. Alguns são despropositados, como os que afirma que os médicos da virada do século que persuadiram as mães amamentar os filhos e assim diminuir a mortalidade infantil são culpados de ” imperialismo masculino contra as mulheres “. Outros ainda são motivados por inveja. Por exemplo, somos levados a acreditar que os homens que dirigem empresas de computador são bem-sucedidos não por causa de sua expertise e sua determinação, mas devido aos ” games de comando ” que eles gostam de jogar nos finais de semana.

Neste capítulo iremos nos deter em três casos, que selecionei porque eles levaram algumas das denúncias mais estridentes. O primeiro é alegação de que, na Grécia Antiga, os homens confinavam as mulheres a casa e raramente eles permitiram sequer deixar seus aposentos. O segundo é alegação de que os misóginos “Caçadores de Bruxas” europeus do início da Idade Moderna prenderam, torturaram e executaram inúmeras mulheres com a finalidade única de preservar o patriarcado. O terceiro é a ideia de que os nazistas oprimiram as mulheres tanto quanto perseguiam homossexuais, ciganos, judeus e outros.

AS MULHERES GREGAS ERAM CONFINADAS

O debate sobre a posição das mulheres na Grécia Antiga, particularmente em Atenas, já tem dois séculos de idade. Alguns, como Rousseau, defendem o tratamento dispensado às mulheres pelos gregos como um modelo; outros rejeitam esse modelo, argumentando que ele oprime as mulheres e, portanto, era intrinsecamente perverso. Embora o confinamento das mulheres seja apenas uma das mais perversidades atribuídas aos homens gregos, seu papel no ataque ao patriarcado é crucial. Se as mulheres eram oprimidas como afirma a historiadora E.L.Facliere, era necessário garantir que “quase nunca deixar sem os apartamentos das mulheres “.  Ela raramente cruzavam a soleira da entrada da própria casa ” , então sem dúvida eram oprimidas.

O argumento acima consiste em duas partes, a saber: a) que as mulheres eram confinadas aos próprios aposentos da casa; e b) que não tinham permissão de sair deles. Se as mulheres tivessem de fato permissão para frequentar espaços públicos, então obviamente não haveria sentido em confina-las a determinados cômodos da casa. A mais importante fonte citada para “provar” que as mulheres não podiam sair é o Econômico, de Xenofonte, que, sendo mais um exercício de retórica do que uma descrição da vida real, dedica-se explicar como a esposa ideal deveria dirigir o lar enquanto marido cuidava dos negócios. Outra fonte é uma passagem de Eurípides, na qual uma mulher diz que “sair de casa e passear” é “a atitude (feminina) que mais suscita comentários escandalosos”.

Também existem numerosas referências a figuras de linguagem como “agachar-se em casa como uma mulher” (Platão), “a melhor mulher é aquela sobre a qual nada se diz, nem contra nem a favor” (Péricles, no discurso fúnebre em honra dos Mortos da Guerra do Peloponeso) e assim por diante. No entanto, essas frases deveriam ser entendidas como é expressão de um ideal cultural e não como simples descrição da realidade. Existe um provérbio judeu que diz que “a filha de um rei exibe sua honra no interior”. Isso não prova que as mulheres hassídica estejam, o que sempre tenham estado, confinada a casa nem que estejam proibidas de sair dela; para não falar das outras mulheres judias.

Se começarmos nossa pesquisa pelas fêmeas da mitologia, veremos claramente que elas não viviam reclusas. Na Ilíada, quando Zeus confinou os deuses do Olimpo a fim de ajudar os gregos, essa política foi aplicada a homens e mulheres; e ela foi submetida por sua própria esposa, Hera, que fez amor com ele e escapuliu para ajudar os troianos. A Ninfa Marinha Tétis não tinha nenhum problema para visitar o filho Aquiles quando bem entendia nem para executar pequenas missões em seu nome. Ela também abandonou o pai de Aquiles, Peleu, porque ele não era suficientemente sexy; ela não parecia nem um pouco reclusa.

Na Odisséia, Afrodite consegue fugir e envolve-se num romance adúltero com Ares. Atena ajuda Aquiles diante de Tróia e ao mesmo tempo dá as boas-vindas a Ulisses quando ele volta para casa. Em outras narrativas, Afrodite  deixa o Olimpo para se encontrar com um humano, Anquises, e fazer amor com ele. Nenhuma divindade masculina tentou evitar que Hera, Afrodite e Atena encontrassem Páris nos locais ermos em que ele pastoreava suas ovelhas; se tivessem feito isso, muitos problemas teriam sido evitados. Outras deusas erravam pelos campos, como Dafne e Perséfone; ou como a poderosa mãe de Perséfone, Deméter, ao procurar pela filha. Uma dessas deusas, Ártemis, andava pelas florestas e pelas montanhas e não tinha sequer uma casa onde pudesse ser confinada.

O mesmo pode ser dito das heroínas humanas dos épicos. Durante o cerco de Tróia, Helena sobe aos muros da Cidade para observar os dois maridos, Meneleu e Páris, lutando por ela: longe de censurar-lhe por essas atitude, o sogro, Príamo, lhe explica os procedimentos. Andrômaca encontra o marido nos portões de Tróia e costuma visitar os amigos na cidade. Durante o duelo final entre Aquiles e Heitor, a mãe desse último, Hécuba, e suas damas também sobem um muro para assistir. Na Odisseia, Nausícaa e suas criadas vão a fonte lavar roupa e jogam bola enquanto esperam que ela seque. Quando Ulisses narra suas aventuras ao Rei Alcino, a mulher e a filha do rei estão presentes. Na ausência do marido, Penélope prefere ficar em casa, mas isso não impede de aparecer em público sempre que quer. Em nenhum desses casos as mulheres estavam impossibilitada de sair de casa. No máximo, Nausícaa pede ao ” querido pai” permissão para sair, uma atitude razoável para uma garota solteira e uma indicação, quando muito, de que ela não vivia reclusa. Na tragédia, se Antígona realmente vivesse confinada, não poderia ter enterrado o irmão morto. Electra não poderia ter ido ao poço beber água. Clitemnestra, esposa do Rei Agamenon não poderia ter acompanhado marido ao local de reunião da frota, em Aulis, para testemunhar o sacrifício da filha Ifigênia.

Diante das provas, para sustentar que as mulheres viviam confinadas, os historiadores precisam ser mais causistas do que a Inquisição ao negar que a Terra girava em torno do Sol. Se as camas gregas são mais estreitas que as camas norte-americanas dos dias atuais, então obviamente as mulheres e os homens gregos não dormiam juntos e eles ocupavam aposentos separados, raramente visitados por eles. Se a mulher de Iscômaco tem o controle da casa é porque Xenofonte “resisti ao modelo ateniense convencional de esposa”. Se inúmeras pinturas mostram as mulheres engajadas em todo tipo de atividade fora de casa, então essas mulheres devem ter sido cortesãs ou escravas. Se as mulheres dos mitos e do teatro geralmente andam de um lado para o outro ao seu bel-prazer, isso prova que as mulheres imaginárias faziam o que as mulheres de verdade não podiam. Se as provas de que as mulheres apareciam em público nas décadas que seguiram a Guerra do Peloponeso são esmagadoras, isso acontece porque o fim da guerra levou a uma ampla revolução social, embora nenhum documento comprove. Na verdade, a questão não é se as mulheres gregas viviam segregadas, mas, mas exatamente, como a determinação de não encarar os fatos podem ser responsabilizada por isso.

 

Camila Abdo Calvo – www.politicaedireito.org/br

About the Author

Camila Abdo
Jornalista (MTB - 0083932/SP; Associação Brasileira de Jornalista -ABJ- 2457). Escrevo para: -oretrogrado.com.br -www.libernews.com.br e o meu blog pessoal politicaedireito.org/br

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